segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Cristianismo e imaginação

Cristianismo e imaginação


por Gladir Cabral

“Ver o mundo num grão de areia, e ver o céu numa flor selvagem, segurar o infinito na palma de suas mãos, e a eternidade em uma hora” (William Blake)

Nos últimos anos, a imaginação tem-se tornado foco de meus estudos acadêmicos. Fiz pesquisas, li muitos artigos científicos e livros, escrevi textos e participei de eventos em que centenas de interessados se reuniam para debater e compartilhar seus achados sobre essa faculdade tão preciosa na vida humana: a imaginação.

Como bom protestante [rs], acerquei-me do tema com muita resistência e desconfiança no início, pois a imaginação parecia sempre estar associada a heresia, idolatria ou até mesmo alienação política e social. Naquele instante nem me ocorria que, na verdade, a imaginação estava comigo o tempo todo, desde a infância, nas primeiras leituras das histórias bíblicas, nos romances que li, nas canções que aprendia a cantar e depois a fazer.

Talvez a apreensão inicial se devesse a certas interpretações de passagens bíblicas como as de Gênesis 6.5, Deuteronômio 29.19 e Salmo 10.2, que parecem sugerir que os pensamentos do ser humano tendem sempre para o mal e para a idolatria. Entretanto, como alerta Steve Hayhow[1], o fato de a mente humana ter sido afetada pela rebeldia contra Deus não quer dizer que ela não tenha sido também redimida em Cristo. O apóstolo Paulo mesmo alerta em Romanos 12 para a necessidade, e também para a possibilidade, de termos uma mente renovada.

Na verdade, as Escrituras Sagradas estão cheias de passagens que atestam o uso da imaginação para servir aos propósitos de Deus, seja por meio da poesia, da narrativa de histórias, do uso de metáforas, de linguagem figurada, da música e de todas as demais linguagens artísticas. Adoramos a um Deus criativo e cheio de imaginação. O próprio Jesus usou muito a imaginação para ensinar seus discípulos e as multidões: “Olhai os lírios do campo...” (Mateus 6.28); “Eis que o semeador saiu a semear...” (Lucas 8.5). E ele contou histórias, parábolas, ensinou a contemplar, a imaginar...

Muitos teólogos reformados reconheceram a importância da imaginação, como o escocês William Symington, do século XIX, para quem a imaginação era "uma das mais nobres faculdades com a qual o homem foi dotado, e seu uso saudável e apropriado não é apenas necessário à existência da simpatia e outros afetos sociais, mas também intimamente relacionado aos exercícios mais elevados da alma, pelas quais o homem pode compreender as coisas invisíveis e eternas”[2].

Além dos teólogos, grandes escritores cristãos como George MacDonald, G.K. Chesterton, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis usaram com habilidade e profundidade a capacidade humana para imaginar mundos possíveis e tocar nas mentes e corações de seus leitores. Ler esses autores é viajar no tempo e no espaço, no exterior e no interior da alma humana e exercitar as faculdades da mente. Eles não apenas criaram histórias originais e imaginativas, como também refletiram sobre o processo de criação e o uso da imaginação.

Recentemente, o pastor e pregador John Piper comentou que “a imaginação é como um músculo. Ela fica mais forte na medida em que a flexionamos”[3]. Segundo ele, a imaginação não é apenas uma capacidade, um recurso que temos, mas um dever. A imaginação não é apenas a mente em ação, analisando, observando, organizando a realidade. Ela nos permite olhar para os aspectos invisíveis da realidade, explicá-los e expressá-los de forma hábil, como muitas vezes fazem os cientistas e artistas. Para Piper, a imaginação é um dever do cristão, pois sem ela não é possível colocar-se no lugar do outro e amá-lo. Isto é, sem imaginação, não existe empatia, simpatia, amor. E é um dever porque nos permite falar da verdade de modo criativo e interessante.

O escritor norte-americano e pastor Frederick Buechner também compreende a imaginação como um músculo a ser exercitado, o que por si só já é uma metáfora. Para ele, quando usamos a imaginação, nos aproximamos de Deus em sua habilidade de criar a partir do nada. Ele também entende a imaginação como uma capacidade natural de todo ser humano, e seu uso é tão simples quanto assobiar. Exercitamos a imaginação ao criar literatura ou ao usufruir literatura. É preciso imaginação para escrever um romance tanto quanto para ler um. Além do mais, o que foi confirmado por Piper, a imaginação nos permite olhar o mundo a partir do outro e exercitar a sensibilidade humana[4].

O educador canadense Kieran Egan[5] tem dedicado mais de 20 anos de sua vida ao estudo da imaginação e sua aplicação na educação. Para ele, a imaginação é uma grande ferramenta de ensino, que pode permitir ao educador explorar todos os potenciais criativos da mente humana. O bom educador sabe usar e provocar a imaginação de seus educandos. Jesus, como o Mestre, fazia isso com leveza e encantamento.

A imaginação tem também uma forte dimensão política, na medida em que permite a solidariedade humana e a reinvenção da realidade. Ao imaginar o mundo como ele pode vir a ser, e não apenas como ele já é, fazemos um exercício político de recriação e transformação da realidade. É assim que a humanidade tem evoluído. Tudo o que há de bom em nossa cultura e sociedade foi primeiramente imaginado, sonhado; depois planejado e construído. Daí que a imaginação ativa nossa capacidade de pensar criticamente a realidade e transcendê-la.

Outro aspecto interessante é que a imaginação nos permite conhecer a realidade. Ela não nos aliena, não nos joga para fora do mundo, mas nos faz ver com mais clareza nosso tempo, nossa sociedade, nossa história, nossa vida. A imaginação nos faz olhar o mundo com admiração e senso de mistério: aquele “Oh!” que se estampa nos olhos das crianças, e nos nossos olhos, quando estamos diante do oceano. Sem ela, não há ciência nem invenção. Einstein, por exemplo, nos mostra como ciência, criatividade e imaginação podem caminhar lado a lado.

Ainda mais, a imaginação nos permite explorar as dimensões emocionais da experiência humana. Quando lemos um livro, ouvimos uma história, uma canção, assistimos a um filme, contemplamos um quadro ou uma peça teatral, somos tocados profundamente em nossas emoções. A imaginação sensibiliza, ela é a inteligência interligada à emoção. Por isso um professor, um músico, um pregador que saber usar a imaginação toca mais fundo na alma de seus ouvintes.

Finalmente, a imaginação nos permite a vivência plena como Igreja, pois por meio dela podemos edificar os irmãos “com salmos, hinos e cânticos espirituais” (Colossenses 3.16), mas também com causos, histórias, testemunhos, narrativas, danças, pinturas, palmas e silêncio. Ela também nos permite enriquecer a adoração, pois toca com o coração a realidade, a verdade e a vida.

Referências:

[1] Steve Hayhow. Christian imagination. (2008). Acessado em: 20 julho 2010.
[2] Apud Steve Hayhow.
[3] John Piper. Meditation on Imagination. (2003). Acessado em: 20 julho 2010.
[4] Frederick Buechner. Beyond Words: Daily Readings in the ABC's of Faith. New York: Harper Collins, 2004.
[5] Kieran Egan tem alguns livros traduzidos para o português: A Mente Educada, publicado pela editora Bertrand Brasil, e Mente de Criança, pela editora Piaget.



Casado com Ruth (1985) e pai de Johana e Julia, Gladir Cabral é formado em Teologia e Letras, com doutorado em Letras pela UFSC (2000). Atualmente, exerce o pastorado na Igreja Presbiteriana do Brasil e atua como professor universitário em Criciúma (SC). Músico e compositor, gravou recentemente o DVD Casa Grande.

Um comentário:

Sonhos De Deus disse...

A nossa alegria supera nossa tristeza, nosso consolo supera nossa dor, nossa fé supera nossa dúvida, nossa esperança supera nosso desespero, nosso entusiasmo supera nosso desânimo, nosso sucesso supera nosso fracasso, nossa coragem supera nosso medo, nossa força supera nossa fraqueza, nossa perseverança supera nossa inconstância, nossa paz supera nossa guerra, nossa luz supera nossa escuridão, nossa voz supera nosso silêncio, nossa paciência supera nossa impaciência, nosso descanso supera nosso cansaço, nosso conhecimento supera nossa ignorância, nossa sabedoria supera nossa tolice, nossa vitória supera nossa derrota, nossa ação supera nosso tédio, nosso ganho supera nossa perda, nossa resistência supera nossa fragilidade, nosso sorriso supera nosso choro, nossa gratidão supera nossa ingradidão, nossa riqueza supera nossa pobreza, nosso sonho supera nossa realidade... Nosso amor a Deus, ao próximo, à vida, nos faz superar tudo! (Pr. Edilson Ram)Uma semana de vitórias Deus é com tigo creia! TENHO UM BLOG GOSTARIA DE TI CONVIDAR SEGUIR O ENDEREÇO É:http://SNSDEUS.BLOGSPOTFICA COM NOSSO PAPAI já estou te seguindo te encontrei através de uma amiga,post teu comentario vai ser uma benção prs seguidores e visitantes uma semana com muita sorte de benção!!!