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sábado, outubro 08, 2011

QUEM NÃO AMA A SOLIDÃO, NÃO AMA A LIBERDADE

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.
Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.
Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu ‘eu’ sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Orgulho e Vaidade.


A diferença entre a vaidade e o orgulho consiste em que este é uma convicção bem firme de nossa superioridade em todas as coisas; a vaidade, pelo contrário, é o desejo que temos de despertar nos outros esta persuasão, com a esperança secreta de chegar por fim a convencer a nós mesmos.
      O orgulho tem, pois, origem numa convicção interior e,portanto, direta; a vaidade é a tendência de adquirir a auto-estima do exterior e, portanto, indiretamente. A vaidade é faladora, o orgulho silencioso. Mas o homem vaidoso deveria saber que a alta opinião dos outros, alvo de seus esforços, se obtém mais facilmente por um silêncio contínuo do que pela palavra, mesmo quando há para dizer as coisas mais lindas. Não é orgulhoso quem quer;pode-se, no máximo, simular o orgulho, mas, como todo papel de convenção, não logrará ser sustentado até o fim.

Porque é apenas a convicção profunda, firme, inabalável que se tem de possuir méritos superiores e valor excepcional que dá o verdadeiro orgulho. Esta convicção pode até ser errônea, ou fundada apenas em vantagens exteriores e de convenção, mas, se é real e sincera, em nada prejudica o orgulho. Pois o orgulho tem raízes na nossa convicção e não depende, assim como sucede com qualquer outro conhecimento, do nosso bel-prazer. O seu pior inimigo, quero dizer o seu maior obstáculo, é a vaidade, que apenas leva o indivíduo a solicitar os aplausos alheios para, em seguida, formar uma opinião elevada de si mesmo; ao passo que o orgulho supõe uma opinião já firmemente arraigada em nós. Há quem censure e critique o orgulho; esses sem dúvida nada possuem de que se orgulhar. 
 
  
(A. Schopenhauer. Dores do Mundo. 
São Paulo: Edições e Publicações Brasil, 1959 - tradução revista).

sexta-feira, julho 22, 2011

O Nome

por Jorge Camargo

Alguns se acham donos do Nome. Outros se tornaram representantes do Nome, especialistas em interpretá-lo, explorá-lo e vendê-lo.
Outros falam no Nome o tempo inteiro, a ponto de fazer com que corra o risco de tornar-se apenas um nome como outro qualquer.
Enquanto isso, o Nome se manifesta no silêncio e nos ruídos da natureza, nas palavras de quem não tem voz nem vez.
Há também os que odeiam o Nome, na maioria das vezes por conta daquilo que os que ostentam o Nome fazem (ou deixam de fazer) em nome Dele.
Ultimamente tenho evitado proferir o Nome.
Mais do que depressa alguns que adulam o Nome me acusam de tê-lo renegado.
Não me importo.
O Nome e eu sabemos que isto não é verdade.
E aquilo que o Nome sabe é o bastante, mesmo quando nada sei.
Eu tenho evitado pronunciá-lo, mas não porque o despreze. Pelo contrário.
Ele tem se tornado ao longo da vida tão grande pra mim que as formas de proferi-lo são incapazes de abarcá-lo.
E é bom que seja sim.
O Nome - quando explicado, destrinchado, estudado e analisado - corre o risco de ser apenas um mero nome.
E penso que o Nome gosta mesmo é de não ter nome, uma vez que se identifica radicalmente com os anônimos do mundo, com os que não são, que não têm nome.
É muito bom ter reverência pelo Nome.
Ele fica bem longe.
E aí está o paradoxo: quando longe, o Nome se faz mais perto que nunca.
E deixa de ser apenas um Nome, pra ser gente.
 Jorge Camargo é músico, poeta e compositor.

copiado e colado do Cristianismo Criativo

segunda-feira, abril 04, 2011

POCKET POSH JANE AUSTEN



A dica de veio veio da nossa Janeite italiana Maria Grazia (My Jane Austen Book Club): é um livro de jogos de Jane Austen, publicado pela Andrew McMeel Publishing. O livro oferece testes divertidos, entre eles: palavras cruzadas, trivias e palavras para desembaralhar para testar sua memória e conhecimento a respeito dos personagens de Austen, suas histórias e vida. Segundo Maria, certamente é um livro que cativará qualquer Janeite, além de ser um ótimo exercício mental. Além disso, é perfeito pois cabe em qualquer bolsa e um conveniente modo de se passar o tempo. Além de Jane Austen, há também o livro William Shakespeare.

Você poderá conhecer melhor o livro e comprá-lo aqui.
via O Blog da Jane Austen Sociedade do Brasil

sábado, fevereiro 26, 2011

Mr. Darcy e as mulheres prendadas

Copiei e colei um texto de um blogueiro. Por que? Porque eu amo Jane Austen e é raro ver um homem também gostar, então não resisti.

Sempre que perguntam qual meu livro favorito, diferentemente de muitas pessoas que preferem dizer todos, respondo de imediato: Orgulho e Preconceito.
A obra-prima de Jane Austen, apesar de ser, na visão de muitos, um “livro para moças”, abriga alguns dos personagens mais vívidos que já pude encontrar em um romance. Um deles é o tão amado Mr. Darcy, aquele com o qual eu mais me identifico.
Hoje compartilho com você uma das passagens em que ele e Caroline Bingley expõem a Elizabeth Bennet sua definição de mulher realmente prendada:
– Apesar do grande número das minhas relações, não posso gabar-me de conhecer mais de meia dúzia de moças realmente prendadas.
– Nem eu — disse miss Bingley.
– Nesse caso — observou Elizabeth –, deve exigir muitas qualidades para o seu ideal de mulher perfeita.
– De fato, exijo muitas qualidades.
– Oh, certamente — exclamou a sua fiel aliada. — Nenhuma mulher pode realmente ser considerada completa se não se elevar muito acima da média. Uma mulher deve conhecer bem a música, deve saber cantar, desenhar, dançar e falar as línguas modernas, a fim de merecer esse qualificativo, e além disso, para não o merecer senão pela metade, é preciso que possua um certo quê na maneira de andar, no tom de voz e no modo de exprimir-se.
– Sim, deve possuir tudo isso — acrescentou Darcy. — E acrescentar ainda alguma coisa mais substancial: o desenvolvimento do espírito pela leitura intensa.
– Já não me espanto de que conheça apenas seis mulheres completas, espanto-me é que conheça alguma.



Tradução de Lúcio Cardoso

Fonte: Lendo.org

domingo, janeiro 23, 2011

Versões de mim

Versões de mim

(Luiz Fernando Veríssimo)
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.

Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…
Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:
- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
- Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?
- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei a seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia..
- Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.
Olhamos para o intrometido… Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me tirei… Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…
Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.
- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…
- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?
- Você…
- Morri com 28 anos.
- Bem que tínhamos notado sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
- E ter levado o chute na cabeça…
- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…
- Você deve estar brincando.
Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.
Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.
- Quem é você?perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E..?
Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo…
Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você não teve, mas sim, aquilo que foi feito!

Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!

 

sábado, janeiro 22, 2011

Resultado da Promoção: Ganhe o Livro " Acontece a cada primavera"

Saiu o resultado da promoção Ganhe o Livro " Acontece a cada primavera".
O vencedor é a Luciana, que postou o comentário de nº 17.
Parabéns, Lú. Envie o seu endereço completo para o e-mail meireymeire@gmail.com e a editora Mundo Cristão enviará o livro no conforto da sua casa.
Lembrando, será a Editora Mundo Cristão que enviará o livro.
Eu agradeço de coração a todos que participaram dessa promoção e deixo a dica para ficarem ligados nas próximas que virão...



terça-feira, dezembro 28, 2010

Promoção: Ganhe o Livro " Acontece a cada primavera"


Falar sobre relacionamentos não é tarefa fácil. Como se diz por aí, "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher". Bem, o dr. Gary Chapmam vem metendo vários talheres desde a década de 1970. Ele desenvolveu a série "As 5 linguagens do amor" e se especializou no assunto, chegando até a ser apelidado de "o doutor do amor".
Em sua obra mais recente, Chapman resolve inovar na forma de aconselhar, escolhendo a trilha do romance. Com essa opção, tornou mais simples e leve a tarefa complexa de tratar de sentimentos. Afinal, em todo relacionamento há um misto de sonho e realidade.
Uma escolha superlegal, afinal fé e amor "casam bem", não é? Ele se uniu à Catherine Palmer para discutir os problemas comuns dos relacionamentos amorosos. Em Acontece a cada primavera, ele apresentam a história de Steve e Brenda, um casal comum, com problemas comuns, mas que soube chegar a uma solução infelizmente não tão comum: permanecer juntos.
Este livro com certeza vai agradar a todos os casais por seu tema relevante, linguagem acessível e, principalmente, pela sensibilidade da dupla de escritores para abordar o tema.



DEIXE UM COMENTÁRIO NESTE POST, E CONCORRA A UM EXEMPLAR DO LIVRO ACONTECE A CADA PRIMAVERA.

terça-feira, novembro 30, 2010

terça-feira, outubro 26, 2010

"Dom Quixote" interactivo disponível na Internet

O clássico de Cervantes “Dom Quixote de La Mancha” está desde hoje disponível em formato digital e interactivo na página da Biblioteca Nacional de Espanha (BNE). O projecto, intitulado “Quixote interactivo”, foi levado a cabo pela BNE, que digitalizou exemplares das edições de 1605 e 1615 da obra. Além da obra em si, há música, imagens e outros conteúdos à disposição do leitor.
Cervantes  

Cervantes (DR)
 
Esta versão interactiva da obra de Cervantes permite folhear as páginas do livro com música de fundo e o acesso a vários conteúdos que ajudam a contextualizar a leitura. Segundo o jornal espanhol “El País”, entre esses conteúdos está um mapa, que situa as aventuras de Dom Quixote, e uma galeria de ilustrações dos momentos mais importantes e dos personagens do clássico. Também vão estar disponíveis análises das relações de “Dom Quixote de La Mancha” com outros livros de heróis cavaleirescos.

Ainda segundo o jornal espanhol, o projecto resultou do trabalho de bibliotecários, especialistas em arte e literatura da época, designers gráficos e programadores. Pepa Michel Rodrigues, directora da Biblioteca Digital e Sistemas de Informação da BNE foi a coordenadora do processo.

A iniciativa junta material de 43 edições diferentes. No total são 1282 páginas, 165 ilustrações e mapas, 21 obras relacionadas, 37 capas e contracapas e 13 faixas de música de fundo.  
 

quarta-feira, agosto 25, 2010

O Boato

"Ora, um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados. Um popular acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros, e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto - tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular -, começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e às vezes até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou."

Erico Veríssimo (Trecho do livro "Incidente em Antares", no cap.56 da parte 1)

quinta-feira, agosto 19, 2010

Favela carioca usa biblioteca para combater o crack

"Um livro aberto é um cérebro que fala. Fechado, um amigo que espera. Esquecido, uma alma que perdoa. Destruido, um coração que chora." Voltaire
O acervo conta com 600 obras até agora, todas vindas de doação
A comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, está implantando uma biblioteca comunitária para afastar os jovens do crack e das drogas.
O acervo conta com 600 obras até agora, todas vindas de doação. Falta montar as estantes e desempacotar a maior parte dos títulos - alguns já estão acessíveis para os mais de 200 mil moradores da região.
O idealizador do projeto, Rafael Cruz Nascimento, afirma que tem dois amigos que caíram no mundo das drogas, o que o inspirou no projeto.
- Passei os livros para eles e eles gostaram. Eles querem mudar, mas é difícil quando se entra nesse mundo [das drogas]. Esquece de família, de amigos, de tudo.

sábado, agosto 14, 2010

Companheiros

Companheiros
Mia Couto*
quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros


*Mia Couto, de Moçambique,

quinta-feira, agosto 12, 2010

Sete Sapatos Sujos”

O escritor moçambicano Mia Couto, também licenciado em Medicina e Biologia, fez uma oração de sapiência, no dia 7 de Março, na abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Excertos desta oração foram publicados no “Courrier Internacional”  de 2 de Abril. 
Destacamos “Os Sete Sapatos Sujos”:  
Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei “Sete Sapatos Sujos” que necessitamos  de deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico. 
Primeiro Sapato: A ideia de que os culpados são sempre os outros.

Segundo Sapato: A ideia de que  o sucesso não nasce do trabalho.
Terceiro Sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo. 
Quarto Sapato: A ideia de que  mudar as palavras muda a realidade. 
Quinto Sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
Sexto Sapato: A passividade perante a injustiça. 

Sétimo Sapato: A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.
via: e.s.p.s.

Tira as sandálias dos pés, pois o lugar que estás é santo...
 DESAPEGO - GLADIR CABRAL

sábado, julho 17, 2010

Prega a Palavra!

Prega a Palavra!

charles-swindoll 
Entrevista com Charles Swindoll

Quero pregar até que não tenha mais fôlego. Nada me incomoda mais do que a idéia de me ‘aposentar’.
Por J. R. Kerr

Charles Swindoll, 75 anos, está se aproximando de um momento no qual as pessoas costumam desfrutar suas vidas como aposentadas. Ele, todavia, não abre mão de continuar a pregar a palavra, e as gerações mais jovens ainda o têm como modelo. No passado, a Universidade Baylor e o jornal Leadership o consideraram um dos melhores pregadores da América. O Chanceler do Seminário Teológico de Dallas tem trabalhando no ministério pastoral há mais de quarenta anos, e já contribuiu, de diversas formas, com a publicação de mais de 70 livros. Suas pregações têm sido transmitidas por mais de 2000 rádios em todo o mundo.
Swindoll, que também é o pastor sênior da Stonebriar Community Church, em Frisco, Texas, começou a trabalhar recentemente em uma série de 27 comentários bíblicos, dos quais o primeiro foi Insights em Romanos (Zondervan). J R Kerr, um dos pastores da Park Community Church, em Chicago, falou com Swindoll e pediu que ele desse alguns conselhos a pastores mais jovens.

Tem havido uma renovação na pregação centrada no evangelho, na qual o foco está na expiação, e em se fazer de Jesus um herói. Como você responde aos críticos que dizem que uma pregação muito focada em questões históricas tira a atenção do cerne do evangelho?
Ao apresentar o evangelho às pessoas, você as está apresentando algo no qual possam acreditar. Para isso, é necessária toda uma preparação. Você não chega, entrega a mensagem de maneira fria e se despede. É necessário despertar um desejo no povo. Por exemplo, quando Jesus falou sobre o semeador, ele não apresentou nenhuma fórmula. Ao invés disso, ele se utilizou de uma realidade conhecida das pessoas – o semeador saindo a semear – e talvez tenha até apontado para um semeador que fazia seu trabalho, enquanto contava a estória. Ao expor uma mensagem às pessoas, preciso fazer de tal forma que revele a elas as necessidades dos seu dia a dia; sua história. Algumas das coisas mais importantes a se pregar podem ser vestidas com roupagens históricas. É evidente que o objetivo é o de sempre pregar a Cristo, sua graça, amor, misericórdia, compaixão, discernimento e sabedoria. Acho que soa um pouco estranho criar uma estória só para encaixá-la na mensagem do evangelho. Nem todo texto carrega a mensagem do evangelho.

Quais conselhos o senhor tem para jovens pregadores?
Gostaria que eles dissessem, ‘quero levar a sério minha tarefa de pregar a Bíblia. Não vou ficar enrolando o povo, fazendo da entrega da mensagem uma mera oportunidade de entretenimento. Quero apresentar a elas a Palavra, fazer com que tenham interesse por sua mensagem. Quero caminhar pelos livros da Bíblia, apresentando o que é importante, e fazendo disso minha grande tarefa. Quero ser conhecido, em vinte anos, como um expositor. Quero ser capaz de pegar as Escrituras e mostrar às pessoas como elas são relevantes. Quero começar a expor Romanos 1.1, e quando chegar ao final do capítulo 16, quero que as pessoas pensem, ‘como eu pude passar metade da minha vida sem conhecer essa mensagem?
Se eu, em algum momento, tivesse escrito um livro sobre pregação, ele conteria três palavras: pregue a Palavra. Livre-se de todas as coisas que lhe prendem e impedem de expor o evangelho com pureza; pregue a Palavra. 2 Timóteo 4.2 diz ‘pregue a Palavra a tempo e fora de tempo’.
Um de meus mentores, Ray Stedmen, costumava dizer, ‘nunca tire o dedo do texto, a despeito de você estar expondo-o ou aplicando-o. Faça com que os olhos das pessoas estejam fixos nele, e fale acerca de Jesus’. É simples assim.

Como o senhor pretende viver seus próximos anos?
Quero pregar até que não tenha mais fôlego. Nada me incomoda mais do que a idéia de me ‘aposentar’. Coisas estranhas acontecem quando você se descompromete. Primeiro você fica muito mais negativo; depois você começa a contar para as pessoas sobre suas últimas cirurgias. Enfim você acaba perdendo os contatos com os outros. E eu não quero perder contatos.
Traduzido por Daniel Leite 

sábado, julho 10, 2010

Os Adultos


"Os adultos são gente crescida que vive sempre dizendo pra gente fazer isso e não fazer aquilo. Interrompem sempre o que a gente está fazendo pra mandar fazer outra coisa que a gente não quer, mas quando a gente interrompe eles por qualquer motivinho o menos que apanha é uma espinafração na frente dos de fora. Adulto promete muita coisa, agora fazer mesmo que é bom eu nunca vi. Quando a gente cobra, eles dizem que menino chato ou então falam esqueceram e vão fazer no domingo que vem. Eles sempre dizem que no seu tempo não era assim mas nunca fazem o que obrigam a gente a fazer, como apanhar tudo o que caiu no chão, andar sempre limpo e dizer somente a verdade. Os adultos também obrigam a gente a vestir muito limpinho pra ir nas festas mas eles mesmos vão de qualquer maneira que às vezes, até dá vergonha, como aquela calça toda apertadinha da mamãe e aquela toda largona do papai. Eu quando crescer vou ser adulto só porque sou obrigado senão eu ia ser sempre pequenininho."

quarta-feira, julho 07, 2010

"O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos".

Estou, tardiamente, lendo o livro Terra Sonâmbula de Mia Couto. O pouco do que já li desse escritor, falou profundamente à minha alma. 
Deixo aqui uma resenha do livro:



Terra Sonâmbula.
"O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos". É então, para voltar a ver, que o menino guarda suas fantasias no bojo de uma viagem, as páginas do seu diário transformadas em páginas de uma estrada.
No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, em meio a perigos e carências de toda ordem, o menino Muidinga e seu relutante protetor, o velho e alquebrado Tuahir, caminham a esmo, fugindo do morticínio insano causado pelas guerrilhas que lhes destruiu a base material da existência e sua teia de relações familiares e sociais. Encontrar os verdadeiros pais de Muidinga, que foi recolhido por Tuahir num campo de refugiados, é a justificativa da viagem. Mas, na verdade, os dois apenas procuram se manter vivos, tarefa que nem sempre parece possível.
Muidinga não se recorda de sua infância, não se recorda de nada. É como se sua vida começasse depois do encontro com Tuahir, que o recolheu quando este, à beira da morte, ia sendo enterrado. A doença deixou o menino sem memória, e Tuahir “teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar”.
 
Muidinga e Tuahir, fatigados de andar, encontram um Machimbonbo (1) incendiado. No interior, o veículo está cheio de corpos carbonizados; quando vão enterrá-los, o velho e o menino se surpreendem com um outro corpo estirado junto à estrada morto recentemente a tiro. Junto dele há uma mala, onde são encontrados os cadernos que contam a história de Kindzu, o morto em questão.
A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a referida viagem de Tuahir e Muindinga, e o percurso de Kindzu em busca dos naparamas (2); seu encontro com Farida, mulher por quem se apaixona; a busca por Gaspar, filho de Farida.
 
A postura de Kindzu muda ao conhecer Farida e sua trajetória de vida. Farida mora em um navio abandonado, refugia-se de si mesma, de sua má sorte. Foi vítima da guerra e da hostilidade do português Romão Pinto, com quem teve um filho que não era seu, e que logo que tirado do ventre foi entregue para a Igreja “como se fosse encomenda de ninguém, um lapso da vida”.
E, após muitos desencontros, Kindzu conclui que encontrar Gaspar seria tarefa quase impossível: “voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor. Farida não aceitaria a minha falta de promessa”.
O mais magnífico na narrativa é o último capítulo do livro, o desfecho. No sonho de Kindzu, refletida numa visão cuja descrição finaliza o romance, a paz também foi resgatada, e com ela a possibilidade de as pessoas recuperarem a sua humanidade. Kindzu, finalmente um naparama, salva seu irmão Junhito, quando este é ameaçado pelas personagens que representam a corrupção, a violência, a extorsão, enfim, os “fazedores de guerra”. Kindzu deseja se “apagar, perder voz, desexistir”. O sonho é revelador, confuso... é presságio do fim. E o final é surpreendente, oferece ao leitor a hipótese de Muidinga ser Gaspar, e que no momento de sua morte Kindzu finalmente iria ao encontro do pequeno, quando é acertado, não se sabe por quem. Um final suspenso, ou melhor, uma interpretação para cada leitor.
 
(1) Machimbonbo: ônibus.
 
(2) Naparamas: designação dos guerreiros tradicionais que usam apenas arco e flecha, e que se supõe estarem protegidos pelos feiticeiros contra aação das balas.


A Anatomia de Uma Dor

Lewis e o Sofrimento


Encontrar C. S. Lewis em seu momento mais amargo, triste e solitário é uma experiência tocante. Ver seus sentimentos se misturarem com seu poder de análise, trazendo a tona um homem de fé confuso e inconformado nos faz lembrar da nossa humanidade e fragilidade. Nos faz lembrar que existe um lugar de dor, que todos nós, em qualquer tempo, poderemos chegar.
Quem já leu C. S. Lewis, sejam suas ficções, dotadas de uma certa singeleza, ou sejam seus tratados e ensaios, repletos de argumentos claros, dissecando todo o assunto e chegando sempre ao cerne da questão, percebe que ele está diferente. Não completamente;  o poder de análise ainda está lá, a tentativa de uma observação racional também.  Mas sabemos que quando a dor chega, tudo muda.

“A Anatomia de Uma Dor” parece ser uma ironia do destino para C. S. Lewis, que anos antes escreveu “O Problema do Sofrimento”, dissertando sobre os motivos do sofrimento e qual a sua natureza. Mal ele sabia que anos mais tarde enfrentaria uma prova tão grande: a perca da sua amada esposa Joy.
Joy era uma mulher perspicaz e inteligente, que sempre escrevia para Lewis. Anos depois ela se mudou para Londres, e então nasceu uma sólida amizade entre eles. Porém, o visto de Joy estava vencendo, e para que ela pudesse permanecer no país, em um ato solidário, Lewis se casou com ela. A partir de uma amizade belíssima, surgiu o amor. Quando Joy foi acometida de um cancer, Lewis realizou o casamento no religioso em um leito de hospital. Entre melhoras e quedas, eles viveram um tempo apaixonante. Até que ela veio a falecer.

A partir daí, sem saber como administrar toda aquela dor, Lewis resolveu anotar os seus pensamentos a respeito do luto. Com a esperança de que aquelas anotações pudessem ajudar alguém no futuro que viesse sofrer o mesmo. Então surgiu “A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação”. Um verdadeiro diário do sofrimento de Lewis.
Lewis lança questões que muitos não tiveram coragem de dizer, mas sempre quiseram.  A cada página somos levados a uma reflexão profunda sobre a vida, sua brevidade, e o propósito divino de tudo isto.
Nenhum de nós espera chegar a um estado de sofrimento tão profundo, mas sabemos que é possível. Com este livro percebo que o sofrimento não é fim, mas o começo de uma nova jornada. Uma jornada de conhecimento, para Deus, para si mesmo, para o outro.
Trechos do Livro:
“Nesse meio tempo, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor, você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio.”
“Não é possível ver nada de maneira adequada enquanto os olhos estiverem embaçados de lágrimas. Você não pode, na maioria das situações, conseguir o que deseja se o fizer desesperadamente: o resultado é que não conseguirá aproveitá-lo ao máximo.
“Aos poucos passei a sentir que a porta não está mais fechada e aferrolhada. Será que foi minha necessidade frenética que a fechou na minha cara? Quando nada há em sua alma exceto um grito de socorro tavlez seja o exato momento em que Deus não o pode atender: você é como o homem que se afoga e que não pode ser ajudado por tanto se debater. É possível que seus gritos repetidos o deixem surdo à voz que você esperava ouvir.”
A Anatomia de Uma Dor – Um Luto em Observação, C. S. Lewis. Ed. Vida.
Sinopse: Escrito após a morte de sua amada recém esposa Joy, C. S. Lewis registra nesse livro seus pensamentos mais amargos em relação ao luto. Dúvidas e observações, para encontrar conforto em meio ao sofrimento, demonstrando que o discurso de lamentação é um privilégio para os achegados de Deus, nunca negando a fé e sim a lapidando-a.

terça-feira, julho 06, 2010

A Criança...


"A criança é uma coisa assim bem depressa, assim bem macia, cheia de muitas palavras erradas que todo mundo ri. Elas gostam bastante só de brincar e têm medo de apanhar porque estão sempre fazendo aquilo que não devem. Elas querem tudo que vêem e pedem com a mão e com o olho. É muito difícil obrigar uma criança a se lavar, agora a se sujar não é não. Criança é muito teimosa e nunca faz o que os mais velhos mandam de modo que tem muita que ninguém quer. É por isso que eu nunca vi pai e mãe sem filho mas tem muito filho sem pai nem mãe."