quarta-feira, dezembro 02, 2009

Fé demais não cheira bem

Um texto de Humberto Ramos sobre o filme “Fé demais não cheira bem”

Neste ultimo domingo, dia 25 de março, quando cheguei em casa a noite depois do culto, liguei a TV para verificar se havia alguma programação interessante. Como de costume, preparei minha janta, permanecendo a TV ligada. No Domingo Maior (Globo), estava passando mais um daqueles filmes chatos do Van Dame. Mudei de canal, desta vez SBT, que transmitia um filme que já deveria estar se aproximando da sua metade. Algo me chamou a atenção... Um pastor, daqueles norte-americanos bem animados e dançantes, era o protagonista da história. Resolvi assistir.

O nome do filme “Fé demais não cheira bem” (sinopse do filme, clique aqui) não era muito sugestivo. Mesmo assim, eu estava louco para ver do que se tratava. O pastor, encenado pelo engraçadíssimo (pelo menos eu acho) Steve Martin, na realidade não era um pastor. Ele era um picareta que se valia da fé ingênua e acrítica de fiéis de um vilarejo nos Estados Unidos para ganhar uma boa grana as suas custas.

Por tratar destas questões com certo tom de comédia, o filme até chegou a me fazer rir; mas por ser também uma crítica aos abusos que determinados “lobos” em pele de cordeiro cometem entre pessoas inocentes, me fez chorar. É triste saber que coisas como estas não acontecem apenas no cinema; ao contrário, neste caso, o cinema está somente a retratar o que ocorre na vida real. Eu mesmo já presenciei reuniões nas quais o preletor, praticamente um showman, conduzira a platéia durante todo o sermão (se é que pode se chamar estas misérias de sermão) ao momento climático no qual, para receberem uma dádiva de Deus, as pobres almas teriam de oferecer o seu melhor, ou seja, grandes quantias em dinheiro.

O fim da história muitos já sabem: desilusões, perda da fé, ódio e rancor, etc. Isso acontece porque grande parte das pessoas presentes nestes eventos religiosos o fazem com um sentimento de última chance. Desenganados pelos médicos, doentes terminais, endividados a ponto de cometer uma besteira, pais e mãos que já haviam perdido a esperança de uma solução para a vida de seu filho drogado que já está metido no crime procuram nestas reuniões a solução pragmática, instantânea e miraculosa para seus pesares.

O que mais dói é saber que o que é prometido nestas reuniões não tem nada a ver com Deus, embora seu nome seja proferido várias vezes; dói saber que no final das campanhas estes caras vão embora sem mesmo se recordar do rosto daquele pobre fiel que, no final do culto, aproximou-se dele alegremente, a fim de receber uma oração especial; dói saber que a mensagem pregada não é o evangelho; mas, sim, um pseudo-evangelho. Dói, e talvez mais do que qualquer coisa, saber que estamos inertes em relação a tudo isso. Poucos são os que exercem a verdadeira voz profética que denuncia estas e outras mentiras, poucos são aqueles que gastam suas vidas ministrando a mensagem da cruz, poucos são os que doam seus dias em favor destas pobres vidas que, nas palavras de Cristo, “estão como ovelha sem pastor”.

No final do filme, um adolescente irmão de uma garçonete da única lanchonete do vilarejo vai ao culto em busca de cura para seu mal. Ele sofrera, juntamente como sua família, um acidente de carro, motivo pelo qual portava uma deficiência que o impedia de movimentar uma das pernas. Ele já havia procurado um desses pastores, que, na impossibilidade de curá-lo, atribuíram isso a sua falta de fé. Contudo, este menino não se deixou abater, manteve-se acreditando na possibilidade de ser curado. Na verdade, numa atitude radical, ele chegara até mesmo a rejeitar a medicina como via para o milagre. Sua ajuda tinha que ser dos céus. Sendo assim, a despeito de toda a farsa e picaretagem empregadas pelo pastor Jonas, em uma cena dramática e comovente, o menino recebe sua tão esperada cura ao tocar no enorme crucifixo estendido no centro do palco.

Com estas e outras coisas mais que ocorrem nos últimos momentos do filme, Jonas, o pastor pilantra, ou melhor, o falso pastor, é comovido pelo milagre e desiste de continuar a enganar aquela população.

Particularmente, não tenho visto muitos destes caras se arrependerem, em público, de seus maus atos. Ainda assim, espero em Deus que eles recobrem seus sentidos e acordem de sua maligna embriagues espiritual a tempo de alcançarem graça e perdão Divinos. Afinal, mais “cegos” do que os fiéis enganados são estes homens, pois não conseguem enxergar o triste fim que os espera, e sobre eles Jesus e os apóstolos já nos advertiram.

Pequenas considerações:
I - Os picaretas da fé
Como já mencionei anteriormente, o fim dos picaretas da fé (falsos profetas e mestres) será terrível, pois, com certeza, Deus não deixará impunes os que insensivelmente machucam e exploram Suas ovelhas. Vejamos um pouco do que as Escrituras falam a respeito deles:
MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo. Tiago 3.1(vejamos que aqui a palavra nem sequer está tratando de falsos mestres; no entanto, adverte com dureza aqueles que almejam ensinar).
Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. ... Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Judas 4 e 11
E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. Mateus 24.11
Porque se levantarão falsos cristos, e falsos profetas, e farão sinais e prodígios, para enganarem, se for possível, até os escolhidos. Marcos 13.22
Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. IICoríntios 11.13
Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Mateus 13.41.42
II - Os Milagres
Os escândalos e exageros produzidos pelos mercenários da fé, dentre várias outras, é uma das razões pelas quais tanto incrédulos como cristãos fiéis têm deixado de acreditar na possibilidade de existência de milagres genuinamente verdadeiros ainda nos dias atuais. Não é pequeno o número de cristãos que têm dificuldade de acreditar em manifestações poderosas do Espírito Santo, milagres, e na contemporaneidade dos dons espirituais (especialmente chamados por alguns de dons manifestacionais). É claro, não são somente os mercenários que geram tal descrença; atitudes impensadas de crentes imaturos também têm causado tais coisas.
A despeito de todos os escândalos, exageros e deturpações continuo acreditando na possibilidade da manifestação de Deus como nos primeiros dias da Igreja Cristã, acredito que os dons são para hoje e, claro, acredito em milagres. Vejamos o que a Palavra nos diz a respeito:
E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão. Marcos 16.17.18
E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém. Marcos 16.20
Estes são apenas alguns dentre vários outros versículos da Bíblia que tratam desta questão. Como se pode ver, Jesus deixa claro que seria algo natural entre os que cressem que sinais miraculosos ocorressem. No entanto, no verso 20 do capítulo 16 de Marcos, a palavra deixa claro que as manifestações eram uma forma de o Senhor confirmar a palavra pregada. Portanto, fica claro que os sinais devem seguir a palavra pregada, ou seja, devem ser a conseqüência da pregação genuína do evangelho no meio dos povos (milagres distribuídos sem menção ao verdadeiro evangelho devem ser desconfiados). Evidentemente que não há uma “necessidade” de haver manifestações extraordinárias sempre que a palavra é pregada; afinal, a maior dentre todas as manifestações miraculosas é a manifestação de arrependimento e os frutos do Espírito Santo, que identificam aqueles que, verdadeiramente, se converteram à Jesus.

Outros trechos da palavra tratam detalhadamente acerca dos dons manifestacionais e de sua utilização na Igreja, como por exemplo, ICo12 e Rm 12. Já em ITs 5.19-21 Paulo exorta a Igreja para que “Não extingais o Espírito, Não desprezeis as profecias, Examinai tudo. Retende o bem.”

Encerrando, espero que Deus ajude a cada um de nós nestes dias difíceis nos quais não poucos oportunistas têm pregado um outro evangelho que não o de Cristo Jesus, e este Crucificado, morto e ressurreto. Estejamos, portanto, fortificados no senhor, jejuando, orando e meditando na palavra, a fim de que possamos “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”.

Um comentário:

Descanso da Alma disse...

O mais triste disso tudo é que esse não é o primeiro e nem o último filme satirizando o evangelicalismo, apesar de que este filme é fantástico, mas é o que tristemente acontece.

Mas devemos continuar firmes no evangelho sincero e puro que quermos seguir, demonstrando na prática que Jesus Cristo ainda faz diferença na vida das pessoas.