sábado, dezembro 05, 2009

Só existe um Pastor que nunca falha”

“Só existe um Pastor que nunca falha”
Em tom de alerta, mas também de alento aos ressentidos, Marília de Camargo fala da repercussão de sua dramática obra, “Feridos Em Nome de Deus”  

   Não fosse pelo fato de ela não ter sido ferida por um pastor ou uma liderança, como ela mesma afirma, bem que o título da presente reportagem poderia ser : “Ela fez da sua dor a sua bandeira”. Mas ainda que não seja esse o caso, foi a partir de sua própria experiência de ter ouvido os relatos comoventes e dramáticos de gente que diz ter sido vitima de abuso de toda sorte por parte da liderança, de seu pastor, que Marília de Camargo César se lançou na escrita de sua polêmica, mas real, obra Feridos em Nome de Deus (Editora Mundo Cristão, 2009). Detalhe: essa gente que a procurou era da mesma igreja que ela. Ou seja, ela viu de perto essa comunidade cristã vir à baixo no mais amplo sentido da palavra quando, por motivo de saúde, o pastor se vira obrigado a se afastar da liderança. Tempo suficiente para que pipocassem denúncias de suposto abuso de poder. Ela diz no prefácio de sua obra: “Seria melhor se um livro como esse nunca precisasse ser escrito. Ele carrega em suas linhas uma boa dose de dor e desamparo, sentimento que tive de acolher, digerir e esperar que me ensinassem suas lições até poder traduzi-los para essas páginas e contar adequadamente as histórias que se seguem”.

    Ainda que o tema não seja novo, o sucesso e a aceitação do livro estão no fato de o mesmo ter sido escrito em forma de documentário. Ela foi mesmo a campo como jornalista que é para escrever o livro. E só mesmo um motivo justificaria a imensa procura pela obra (em dois dias de lançamento, 7 mil livros vendidos, agora na terceira edição): a dor dos próprios feridos. Nessa entrevista que nos concedeu com exclusividade, Marília de Camargo César dá mais detalhes acerca de tudo que diz respeito à sua obra, incluindo sua repercussão. Contados a partir de seu lançamento – junho desse ano – até hoje, já se passaram seis meses. Mas por uma questão mesmo de dar tempo ao tempo, optamos por só agora soltarmos a matéria. Longe de agirmos em nome do chamado “faro jornalístico” para darmos o tão propalado “furo de reportagem”, preferimos aguardar. Até mesmo para termos uma leitura mais madura e sábia acerca do que tínhamos em mãos: além do próprio livro, matérias, entrevistas, releases, notas e dados diversas pertinentes. A pauta emergiu da própria leitura de todo esse material, além da própria obra.

    Algumas ressalvas aqui se fazem mais que necessárias. Primeira: a presente reportagem não tem qualquer cunho de apologia ao um suposto “movimento fora pastores”, como se estivéssemos a promover um “caça às bruxas” às avessas em nome de uma “santa inquisição”. Ainda que não neguemos o fato, também é fato de que agir em causa e justiça próprios é perpetuar ainda mais a dor. Ainda que reconhecendo que esse é um “comprimido” não tão fácil assim de descer “goela abaixo”, o perdão continua sendo o melhor remédio para a cura de qualquer ferida. Seja ela de cunho emocional ou espiritual. A presente matéria visa uma coisa só: a reflexão para uma ação em edquilíbrio em relação ao testemunho cristão. Segunda ressalva: a partir dessa premissa acima, a matéria também não aponta nomes de pessoas ou igrejas com vistas à reprimendas indiretas por aquilo que se faz ou deixa de ser feito. Até mesmo porque a obra da autora também não tem esse teor. Terceira premissa: ainda que sendo uma realidade a questão de pastores e líderes abusadores, acreditamos piamente que há raras e honrosas exceções no contexto. Diria mais até: num universo tão grande de cristãos Brasil e mundo afora que constituem o Corpo de Cristo, queremos crer que esses que agem de má fé supostamente em nome de Deus são a exceção, pois acreditamos na verdadeira Igreja de Cristo, a Noiva do Cordeiro, formada inclusive por pastores, líderes e membros fiéis, sinceros e maduros o suficiente para não só cuidarem de si mesmos, mas dos outros. E a última ressalva: ainda que limitados em nossas fraquezas, Deus ainda conta com a gente. Apesar da gente. Isso não é mérito. É graça. Eis então a entrevista:                                         

Lagoinha.com: Além dos próprios relatos daqueles que um dia foram membros da igreja que se dividiu, relatos esses feito a você enquanto escrevia, que repercussão sua obra teve para a própria liderança dessa igreja? Como todos reagiram assim que souberam do livro ou mesmo o leram?
Marília de Camargo César:
Não tive vontade de saber sobre essa reação, não procurei saber. Preferi deixar o tempo cuidar de assentar as emoções e o Espírito de Deus trabalhar no coração de todos os envolvidos – ovelhas e pastores.
 
Lagoinha.com: Ainda sobre sua obra, como avalia sua enorme repercussão, pois o mesmo perece ter caído como bomba no colo de muitos?
Marília de Camargo:
Acho um pouco exagerada essa avaliação. O blog do livro pode ser acessado (www.feridosemnomededeus.com.br) e ali você verá as mais variadas reações. Algumas críticas de cristãos que acham que contribuo para dividir a igreja de Cristo, mas a grande maioria de outros feridos, identificando-se com os relatos do livro. A repercussão, em geral, é muito favorável.
 
Lagoinha.com: Uma vez que o tema abordado em sua obra não é tão novo quanto parece - pois autores consagrados como Phillip Yancey, Brennan Maning, Ricardo Godim, além de outros que também são parte do casting da Editora Mundo Cristão que também compartilham do mesmo pensamento que o seu pelas obras já escritas por eles – como justificaria a enorme aceitação e repercussão de seu livro? Seria porque o mesmo fora escrito em forma de um documentário? O que diria?
Marília de Camargo:
Creio que o fato de não ter sido escrito por um pastor ou um teólogo, mas por uma jornalista, causou interesse, e também pelo formato de reportagem, que não é comum no mundo editorial evangélico brasileiro.
 
 Lagoinha.com: Com certeza, aqueles que trabalham contigo no jornal Valor Econômico souberam de sua obra. Como reagiram a ela?
Marília de Camargo:
Meus amigos me incentivaram e acharam o tema muito interessante. Embora, como em sua maioria não professam a mesma fé que eu, nem têm um interesse tão grande em temas de espiritualidade, compraram o livro, mas nem todos leram (Risos)! Você sabe, jornalistas em geral costumam ser muito céticos e olham para alguém com uma convicção cristã como a minha como uma espécie de objeto voador não-identificado.
 
Lagoinha.com: Se a simples menção de estar escrevendo acerca do abuso emocional/espiritual cometido nas igrejas por parte da liderança foi suficiente para que muitos a procurassem justamente por saber que dessa vez alguém daria voz e eco às suas queixas e angústias, agora que publicou o livro, como se sente? Pois se para esses você talvez seja uma heroína, para outros que parecem insistir na prática do abuso e/ou negá-lo, você pode ter sido taxada como vilã. O que diz e pensa a respeito?
Marília de Camargo:
Fiquei muito surpresa com o grande número de pessoas que se identificaram com os relatos do livro. Como já disse, pessoas que escreveram comentários no blog. A primeira edição do livro, 7 mil cópias, esgotou-se em dois dias. Já estamos na terceira edição. Foi surpreendente até para a editora a repercussão. Mas creio que não existem heróis nem vilões nessa história toda. Existem, sim, líderes imaturos, prepotentes, mal-treinados, em alguns casos, teologicamente equivocados, conduzindo ovelhas ingênuas, sem conhecimento bíblico, carentes, emocionalmente frágeis. Há vítimas dos dois lados da “moeda”.  

Lagoinha.com: Como se deu a seleção do que entraria ou não na obra a partir dos casos e relatos que ouviu e acolheu, já que foram muitos e graves casos e nem todos publicados? Que critérios adotou para priorizar um caso em relação a outro? O que tinha em mente?
Marília de Camargo:
Usei alguns casos da minha antiga igreja e depois parti em busca de histórias de outras igrejas, porque as de meus amigos se repetiam um pouco. A “propaganda” boca-a-boca sobre minha pesquisa facilitou que alguns feridos me procurassem para contar suas histórias. Infelizmente, não foi nada difícil encontrar os casos para o livro. Selecionei aqueles que considerei mais fortes e deixei alguns de fora, por não estar tão em harmonia com o tema da obra.
 
Lagoinha.com: Até onde me consta e também o que dá para se perceber por seu livro é que o que publicou talvez não represente sequer a ponta de um imenso iceberg no que diz respeito aos mandos e desmandos de muitas lideranças tidas ou que se dizem cristãs que agem muitas vezes quase que em regime de coronelismo para beneficio próprio. Como foi e tem sido lidar com tudo isso?
Marília de Camargo:
Infelizmente, a igreja evangélica que vê seu rebanho crescer exponencialmente no Brasil, vê também os casos de abuso de autoridade e abuso espiritual crescerem a uma velocidade ainda maior. O impacto disso é um trauma na vida de muitas pessoas, que não conseguem diferenciar Deus dos homens e acabam abandonando o primeiro por causa do segundo. É preciso fazer essa distinção e buscar pacientemente uma comunidade idônea, onde o abuso não seja praticado. É preciso estar atento.
 
Lagoinha.com: Se tivesse que mensurar os resultados e reflexos de sua obra no meio cristão/evangélico, que balanço faria há pouco meses de seu lançamento e o que mais espera tanto da liderança quanto dos membros de qualquer igreja em relação a tudo que escreveu?
Marília de Camargo:
Não saberia mensurar o impacto do livro de forma macro, mas de forma micro, na vida de muitas pessoas, este trabalho, fruto de muita oração, tem sido usado para cura e reconciliação. E este sempre foi meu objetivo.
 
Lagoinha.com: A seu ver, numa situação de abuso emocional/espiritual, seja velado ou aberto, quem mais precisa de ajuda: o abusador ou abusado? O algoz ou a vítima? E como é essa ajuda e como deve ser conduzida rumo à cura e restauração?
Marília de Camargo:
Ambos precisam de ajuda. Na maioria dos casos que descrevo, as pessoas só conseguiram se reerguer depois de muita terapia. Num dos casos, em que narro a história de um pastor-abusador, ocorreu a mesma coisa. O pastor, no caso uma pastora, entrou em depressão e precisou se tratar terapeuticamente. Ela, que achava que terapia era coisa do diabo, teve que rever essa posição.  

Lagoinha.com: Ainda que tenha apontado como caso extremo de abuso questões envolvendo até mesmo a saúde dos indivíduos, como o de uma vitima de uma enfermidade degenerativa que citou em sua obra, parece haver também como extremo casos envolvendo o aspecto financeiro, dinheiro e posses. Isso é claro em sua obra. Na sua opinião, o caminho para a exploração e o abuso emocional/pastoral envolvendo dinheiro está sempre aberto porque a linha que separa o profissional do ministerial é muito tênue? Ou os abusos só acontecem no campo espiritual? 
Marília de Camargo:
Este é um exemplo clássico de abuso: pessoas trabalhando de graça, que não são trabalhadores voluntários e temporários, mas fixos, funcionários dos templos e de missões, ou ganhando muito pouco, e ouvindo do pastor, que desfila em roupas de grife e no carro do ano, que se ele quer trabalhar para o Reino precisa aprender a “gerar” as suas ofertas, o seu sustento, espiritualmente. Então, enquanto o obreiro não “gera” ou é acusado de ter fé pequena por estar passando necessidade, a situação de desigualdade e injustiça vai permanecendo dentro dos muros da igreja, um lugar que deveria ser lugar de justiça e equidade.
 
Lagoinha.com: Dentre os locais por onde tem ministrado, falado, tem sido convidada para falar nas OAB’s segundo nos consta. Como se deu isso e por que tem estado nesses locais? Seria porque tem havido casos de membros processando judicialmente igrejas porque supostamente não tiveram escolhas?
Marília de Camargo:
Fui convidada a dar uma palestra no Encontro Estadual de Advogados Evangélicos, durante uma reunião promovida pela comissão de liberdade religiosa da OAB de São Paulo. Isso aconteceu em outubro. Existe um interesse grande dos advogados porque é crescente o número de ações envolvendo igrejas, mas a maioria trata de questões trabalhistas porque, como mencionei, tem muita gente trabalhando de graça, sem registro em carteira, numa situação totalmente irregular e vexatória, e as igrejas estão patrocinando esse tipo de conduta.
 
Lagoinha.com: Ao que parece a partir de sua obra é que muitos não denunciam o abuso e a exploração emocional/espiritual na igreja por temerem a exposição, o escândalo e as próprias ameaças dos abusadores.  O que aconselharia às vítimas e também àqueles que também estão em posição de liderança, mas que discordam de colegas que assim agem?
Marília de Camargo:
Primeiro, eu aconselharia a lerem o meu livro (risos). Mas agora, falando sério, é difícil dar conselhos genéricos. Cada caso é um caso, cada um uma história de vida, por cada uma tenho profundo respeito. Sei que vida de pastor não é fácil. As ovelhas começam com uma idolatria terrível sobre a figura do pastor, e isso acaba por corrompê-lo. Os irmãozinhos têm uma enorme parcela de responsabilidade nesses desvios de conduta. O ser humano adora ter seus “postes-ídolos”, adora “gurus” que lhes digam o que fazer, que roupa vestir, com quem namorar ou casar, que emprego aceitar. É a chamada “transferência de responsabilidades”. Depois vão culpar o pastor por ter invadido suas vidas, e não enxergam que foram comodistas, não foram buscar pessoalmente conhecer a vontade de Deus para suas vidas. Não estou querendo justificar os abusos, mas o livro também mostra o outro lado da moeda. Acho que isso é ter uma análise equilibrada.
 
Lagoinha.com: Agora que lançou Feridos Em Nome de Deus está empenhadíssima na biografia da senadora Marina Silva, que já se lança como pré-candidata à presidência do Brasil. Como é isso?
Marília de Camargo:
Estou trabalhando no livro sobre a vida da senadora Marina Silva, uma biografia riquíssima e altamente inspiradora. A previsão de lançamento é no fim do primeiro ou começo do segundo semestre de 2010.
 
Lagoinha.com: E por falar em Mundo Cristão, o que diria da editora e como tem sido trabalhar com a turma?
Marília de Camargo:
O pessoal da editora é o máximo. Sempre me deu um enorme incentivo, investiu em uma autora nova, e creio que os resultados desta parceira têm atendido às expectativas de todos nós.
 
Lagoinha.com: Uma palavra de alerta (em relação aos abusos) aos que se encontram em cargo de liderança.
Marília de Camargo:
Que se lembrem sempre que vivemos na dispensação da graça e não mais da lei, e que o amor encobre uma multidão de transgressões.
 
Lagoinha.com: Uma palavra de alento e esperança àqueles que foram e/ou ainda são vitimas de abuso nas igrejas ou fora delas?
Marília de Camargo:
Só existe um Pastor que nunca falha. Seu nome começa com “jota”.
 
Lagoinha.com: Uma palavra final de agradecimento.                                
Marília de Camargo:
Agradeço aos amigos da Lagoinha pelo espaço e oro para que esta imensa comunidade atente sempre para os caminhos do Senhor, caminhos de amor, de graça, de perdão e de reconciliação. Que vocês nunca se desviem disso e que Deus não permita que haja vítimas de abuso espiritual dentre os muros desta grande igreja. Muito obrigada.
 
Por Marcelo Ferreira
Fonte: Lagoinha.com

2 comentários:

Sú&Alê disse...

olá!!parabéns pela postagem que fala aos coraçoes!!
que o senhor jesus continue te usando grandemente na pratica do "ide"!!!
fique na paz!!!

Antonio Mano disse...

Esse livro vai gerar uma grande indentificação com muita gente. E devido a isso, terá uma grande vendagem.
Achei muito sensata a visão da autora em pecerber que tanto os abusados quanto os que abusam são vítimas.